Em 2000, só um ficou no topo. Desigualdades regionais são reduzidas RIO, RECIFE e BELÉM
O retrato da última década foi de melhora para a maior parte dos 5.565 municípios do país. O incremento da renda com a política de valorização do salário mínimo e programas de transferência de renda nos anos 2000 se refletiu no avanço de indicadores. Em 2000, apenas São Caetano do Sul, no ABC paulista, era classificado entre os municípios com muito alto índice de desenvolvimento humano. Em 1991, não havia nenhum. Hoje, são 44 municípios no topo da classificação de bem-estar.
Uma análise da parte inferior do ranking também revela evolução. Em 1991, 85,8% dos municípios faziam parte do grupo de muito baixo desenvolvimento humano. Em 2000, o percentual caiu para 70% e, em 2010, para 0,57%, ou 32 municípios.
As desigualdades regionais diminuíram. A diferença entre o mais alto e o mais baixo IDHM caiu de 0,612, em 2000, para 0,444 em 2010. Segundo o ministro interino da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência e presidente do Ipea, Marcelo Neri, os municípios com mais baixo IDH avançaram mais.
- Fizemos a estabilização da economia, botamos crianças na escola e, na década passada, tivemos aumento da renda e do emprego com carteira e melhorias na saúde. Existem desigualdades que persistem, mas é impressionante a velocidade do avanço. A desigualdade é muito grande entre os municípios, mas o filme nos últimos anos foi de melhora.
Índices de Zimbábue e Etiópia
A 375 quilômetros da capital pernambucano, em uma das regiões mais pobres do estado, no sertão do Moxotó, Manari está entre os 20 menores IDHM do país.
- Eu tinha vergonha de ser manariense, mas agora bato no peito para dizer que tenho orgulho de ser daqui - afirma a agricultora e recepcionista do Conselho Tutelar de Manari, Benedita Nivalda de Araújo.
A euforia tem razão de ser: a cidade ficou conhecida, há uma década, por ter o pior IDH do país. Não havia água encanada nem esgoto, a escola era de péssima qualidade e, os agricultores matavam a fome com timbus, tatus, lagartos e preás. Hoje Manari tem água encanada, a área urbana começa a ter esgoto, e somam seis mil as crianças nas escolas.
Já Melgaço, na ilha de Marajó, no Pará, não tem motivos para comemorar. A 290 quilômetros de Belém, tem o pior IDHM, de 0,418. Seus indicadores semelhantes aos de cidades de Zimbábue e Etiópia. Metade da população é analfabeta e 48,59% vivem na linha da pobreza (renda de até R$ 70 por pessoa). O município vive de turismo e agropecuária. O acesso é por via fluvial ou aérea.
O diretor executivo da Federação dos Municípios do Estado do Pará (Famep), economista Josenir Nascimento, aponta atrasos de políticas públicas com a troca de prefeitos no último mandato.
- No Pará, Marajó deveria ser prioridade zero - diz Nascimento, para quem a primeira medida seria investir nos ensinos primário e o secundário. - Dos 50 piores IDHs, o Pará tem 14 e só três não são do Marajó. O Pará é um estado rico, mas com povo pobre. E isso é mais acentuado em Marajó, não só em Melgaço.
Nicho ecológico e destino turístico do país, Fernando de Noronha foi considerado o maior IDH do Nordeste. Segundo o administrador geral do arquipélago, Romeu Batista, Noronha hoje tem 90% do seu território com saneamento. Mas ainda enfrenta racionamento de água a cada três dias. E ostenta outro problema sério: o déficit de habitação.
- O emprego é alto por causa do ambiente econômico voltado ao turismo. Como a ilha é de difícil acesso ou de fuga complicada, também não há violência. Além disso, o governo do estado investiu muito nos três últimos anos em saúde e educação - diz.
Ailton Araújo Júnior, membro do Conselho Distrital de Noronha, destaca problemas que o indicador não considera, como os elevados gastos com alimentos.
- Tudo aqui é caríssimo. Uma garrafa de água de 20 litros, que custa R$ 5 em Recife, sai a R$22. Comida é caríssima, devido às despesas de frete. Ganha-se bem, mas gasta-se três a quatro vezes mais do que em Recife.
Entre as unidades da federação, o Distrito Federal apresentou o maior IDHM (de 0,824) e foi a única localidade com "muito alto desenvolvimento humano". Em segundo lugar, ficaram São Paulo e Santa Catarina, com "alto desenvolvimento humano". Alagoas e Maranhão são os estados com menor desenvolvimento.
Por Clarice Spitz, Letícia Lins e Victor Furtado
Fonte: http://www.ipea.gov.br

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