Para isso, a Prefeitura da Capital firma parceria com cemitérios e irá avaliar a demanda junto à população
Parque da Paz é um dos cemitérios mais procurados pela população Fotos: Kid Jr
Antes da obra, que deverá ser no Cemitério do Bom Jardim, o Poder Público quer saber se a demanda pelo serviço justificará o investimento. Enquanto avalia, irá firmar convênios com crematórios particulares, como o Jardim Metropolitano. A ideia é que a partir de julho próximo, o fortalezense, principalmente os mais carentes, já possa contar com essa opção.
A informação é confirmada pelo titular da Secretaria Executiva Regional V (Ser V), Júlio Ramom Soares. Segundo ele, pelo alto custo da obra, cerca de R$ 1,5 milhão e mais a manutenção permanente, é preciso atestar se a alternativa será bem aceita pela população. "Não podemos simplesmente empatar dinheiro público e ficarmos com um elefante branco", argumenta.
Por isso, adianta, firmar parceria com os cemitérios particulares que possuem crematório é a solução mais viável. Atualmente, na Região Metropolitana de Fortaleza, só existe o Jardim Metropolitano. Outros três, Memorial Jardim Garden, Memorial Fortaleza e Parque da Saudade tem projetos para instalar o forno crematório. "Estamos conversando nesse sentido com as empresas e, se no caso, não houver acordo por um valor diferenciado, abriremos licitação pública por menor preço", anuncia.
Mas será que todos os problemas de superlotação, vandalismo e questões ambientais estarão resolvidos com o crematório municipal? E os conflitos religiosos e culturais? Quais os critérios de escolha para sepultar ou cremar por parte do Poder Público?
São muitos os questionamentos, reconhece Júlio Ramon. "Por isso, é imprescindível levantar dados, saber a dinâmica e a legislação que rege o procedimento no País, além de, sendo o mais importante, como a população irá reagir", afirma.
A falta de informações sobre a questão ainda impera um maior número de cremações no Brasil. Apenas 5% dos falecidos são cremados. Em Fortaleza, o percentual ainda é menor: das duas mil mortes, em média, por mês, ocorridas na Capital, 0,5% das famílias escolhem a alternativa.
De acordo com o presidente do Sindicato das Empresas Funerárias do Estado do Ceará (Sefec), Vicente Jales, o fator cultural do cearense impede que ele seja favorável à cremação. "Será preciso tempo e muita conscientização para mudar essa mentalidade", frisa Jales.
Para a administradora Suzana Vasconcelos, a opção pela cremação quando sua mãe faleceu foi natural. "Ela já havia se posicionado e quando nos deixou, não tive dúvidas. A dor não é maior por isso e jogamos suas cinzas no jardim de casa, o local preferido de minha mãe", conta.
O Cemitério São João Batista não possui vagas, apenas conta com a oferta de particulares, donos dos jazigos, que decidem comercializá-los
Já o mestre de obras Djalma Silva, nem pensa sobre a possibilidade. "Minha fé não deixa. Prefiro o enterro normal e um lugar para visitar meus familiares que a cremação não oferece", frisa.
Atualmente, a Prefeitura já oferece o auxílio funeral. No ano passado, foram concedidos 1196 benefícios, atendendo todos os usuários que o requisitaram em um dos 24 Centros de Referência de Assistência Social (Cras) e no Serviço Social de todos os hospitais da rede pública municipal e estadual.
Já o Cemitério do Bom Jardim sofre com a escassez de vagas, tendo que, atualmente, sepultar em valas comuns enquanto prepara terreno para jazigos
FIQUE POR DENTRO
Processo é um dos mais antigos da humanidade
A cremação é um dos processos mais antigos praticados pelo homem. Em algumas sociedades este costume era considerado corriqueiro e fazia parte do cotidiano da população. No Brasil exige que a pessoa registre em cartório o desejo de ser cremado, ou então que o parente mais próximo requisite o serviço. Já a disposição final das cinzas é livre, podendo ser conservadas em jazigos ou entregues a um depositário de cinzas.
Alguns povos utilizavam a cremação para rituais fúnebres: os gregos cremavam seus cadáveres por volta de 1.000 A.C. e os romanos, seguindo a mesma lista de tradição, adotaram a prática por volta do ano 750 A.C. No Brasil, o primeiro crematório com fins funerais inaugurado foi o crematório municipal de Vila Alpina, em São Paulo, no ano de 1974.
ENTREVISTA
Carlos Magno - Psicólogo e pesquisador da Conscienciologia - Sentimento de luto vai depender de cada cultura.
O luto é o mesmo nas diversas culturas?
A morte é um rito de passagem construído diferentemente, a depender da cultura. Logicamente que é intrínseco à visão de mundo e de homem que predomina na população referenciada. É um dos conceitos com amplo espectro de significações, seja dentro de um mesmo contexto, como interculturais. Em um particular contexto familiar teremos varias reações compondo o luto pela perda do mesmo ente querido (ou não), pois estas são vivenciadas em correspondência direta com o "somatório das consequências relacionais" de suas experiências. Logo, cada membro da família pode responder de forma diferente e, às vezes, totalmente antagônicas.
Explique melhor
O que pode ser "perda" por estar intrínseco uma exclusão sistêmica (familiar), pode proporcionar também um "alívio" em razão dos entraves e sofrimentos provocados por aquele membro da família que tem um histórico onde predomina violências, descontroles, labilidades, levando a imprevisibilidades, inseguranças e toda gama de desequilíbrios sistêmicos. No entanto, a morte é caracterizada pelo mistério, pela incerteza e, consequentemente, pelo medo daquilo que não se conhece.
Jardim Metropolitano realizou mais de 1.200 procedimentos em 12 anos
Com crescimento constante no País, a cremação torna-se, cada vez mais, uma opção econômica e sustentável se comparada ao sepultamento comum. Apesar da aparência de prática moderna, o procedimento é uma tradição de quase 3 mil anos.
Crematório do Jardim Metropolitano, no Eusébio: ali, os familiares não são permitidos entrar. Eles esperam três horas, após o início do processo para receber a urna contendo as cinzas do ente querido Foto: Rodrigo Carvalho
No resto do Brasil, a opção pela cremação varia de Estado para Estado: em São Paulo, a média diária chega a 25 procedimentos. No Rio de Janeiro, são realizadas seis cremações/dia.
Com custos mais baixos que o sepultamento em cemitério - que exige pagamento de taxas à prefeitura e muitas vezes manutenção anual do espaço - a cremação é um procedimento permitido por lei em todo o país. "No entanto, a questão cultural ainda é barreira para que a família escolha a alternativa", diz ela.
O processo não dispensa o velório, salienta Monique. "Cada família tem as suas crenças e seus rituais, e a cremação substitui apenas o sepultamento", frisa. Ali, esclarece, além de velórios, ainda podem ser realizadas uma última cerimônia de despedida, com músicas, vídeos, fotos e orações, chuva de pétalas e revoada de pombos, simbolizando a paz. "De acordo com a vontade ou as possibilidades da família, sempre obedecendo a s leis brasileiras", afirma.
A legislação, no caso, determina regras para o procedimento. A pessoa deve manifestar o desejo em cartório. Se isso não foi possível, a lei exige a autorização de dois parentes diretos do falecido e, em mortes violentas, somente com autorização judicial.
Custos
Os custos variam. Se for apenas a cremação, o valor chega a R$ 1,8 mil. Se a opção for o ritual completo, com velório, missa de corpo presente, o total pode ultrapassar R$ 7 mil à vista, ou em até 60 vezes com juros.
As opções podem incluir remoção do corpo, urna funerária de aluguel, ornamentação, cinzário (para colocação das cinzas) e corumbário (espaço reservado no cemitério). Também há opção de aderir a um plano funerário com cremação por R$ 100,00 de adesão e mensalidade que chegam a R$ 50,00, com direito a incluir um titular e nove dependentes. "O destino final das cinzas é uma decisão da família", pontua Monique.
Fonte: http://diariodonordeste.globo.com
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